O QUE É ARTETERAPIA?

A arteterapia se utiliza dos recursos da arte para proporcionar a expressão artística de conteúdos inconscientes e conscientes que podem ser tratados através do processo arteterapêutico, conduzido por um profissional Arteterapeuta.

A arte em si é uma forma de expressão do ser humano e, sendo “uma forma de comunicação e de linguagem simbólica, é um produto da intuição e da observação, do inconsciente e do consciente da emoção e do conhecimento, do talento e da técnica, da criatividade” (ANDRADE, 2000, p.11), que faz parte da atividade humana.

Muitas pessoas apresentam dificuldade em expressar o que sentem ou pensam e a arte pode em um processo arterapêutico, proporcionar uma forma de expressão, uma fala que se dá através da produção artística que em nada precisa ser esteticamente aceitável, nos padrões da arte e sim pela expressão humana no momento da condução interpretativa que o arteterapeuta incentiva, observa, viabiliza e acolhe.

Utilizar recursos das artes em geral, como um grafite, uma produção artística digital, a música e a dança, um poema, uma escrita, as artes cênicas e as artes visuais, favorece expressar, simbolizar e dizer aquilo que por vezes, não é possível falar, mas que daí torna-se uma fala, ou até mesmo uma conclusão sobre essa fala.

A arteterapia possibilita uma fala interior, que emerge ao exterior pelos recursos artísticos utilizados, assim a pessoa consegue se entender, perceber problemáticas e estabelecer possibilidades recursivas de enfrentamento, da mesma forma a arteterapia possibilita descoberta e autoconhecimento.

A função simbólica da arte, menciona Andrade (2000), possibilita criar substitutos da vida real, que permitem ao homem expressar e ao mesmo tempo perceber os significados relacionados à sua vida. E segundo Guimarães (2005, p. 12), “arteterapia é uma abordagem processual, que se utiliza de recursos expressivos e artísticos, no desenvolvimento do potencial humano e/ou terapêutico”; favorecendo expressar os conteúdos interiores.

Christo e Silva (2005) comparam a Arteterapia a uma viagem ao encontro do território de si mesmo, não restrita à utilização de técnicas expressivas no ambiente terapêutico. É, sim, um processo através do qual as imagens são o guia e as técnicas são as facilitadoras do surgimento dos símbolos pessoais.

A expressão através da arte pode evitar ou minimizar a expressão pela violência urbana.  Urutigaray (2006) acredita que através da percepção das imagens e formas pelo autor da obra, e pelo manejo do arteterapeuta, pode trazer clarificação ou conscientização de acontecimentos psíquicos que antes não eram percebidos. 

O método da Arteterapia, por meio de recursos artísticos e com a contribuição das variadas técnicas expressivas — verbais ou não —, fornece oportunidades de exploração de problemáticas e potencialidades pessoais, visando equilíbrio e harmonia. A expressão da criatividade, ligada à compreensão intelectual e emocional, funciona como um facilitador do processo evolutivo da personalidade, e é utilizada com finalidade terapêutica (SANTANA, 2007).

Liebmann (2000) afirma que a Arteterapia utiliza a arte para proporcionar uma forma de expressão pessoal, que serve para anunciar sentimentos, deixando de fora aspectos finais, esteticamente agradáveis.  Para Philippini (2004, p. 13), o processo expressivo é entendido da forma mais ampla que se possa concebê-lo, “deixando de lado particularidades de ordem estética, técnica ou acadêmica, e qualquer escola artística”.

Em Arteterapia o objetivo primeiro da utilização da arte é favorecer o processo terapêutico, diz Carvalho (1995), pois “a terapia por meio das expressões artísticas reconhece tanto os processos artísticos como as formas, os conteúdos e as associações, como reflexos de desenvolvimento, habilidades, personalidade, interesses e preocupações do paciente” (p. 24). Utilizar a arte em terapia consiste em um meio de reconciliar conflitos emocionais, e de facilitar a autopercepção; podendo ser uma possibilidade de cura ou de expressão de conflitos pessoais, sociais e que necessitam de espaço para reverberar.

Christo e Silva (2005) concordam que a Arteterapia inscreve a expressão, mediante suportes materiais adequados, de forma que a energia psíquica plasme símbolos em criações, que reproduzem vários estágios da psique, ativando e realizando a comunicação entre inconsciente e consciente.  Isso vai possibilitando cura e formas de interação entre as pessoas, livrando-as de pressões sociais e de demandas opressivas, da realidade em que vivem.

Para Freud apud Carvalho (1995), o inconsciente se manifesta por meio de imagens que escapam da censura da mente com mais facilidade do que as palavras, e o autor acredita que as obras de arte poderiam transmitir mais diretamente os seus significados. Segundo Carvalho, no princípio do século XX Freud se dedicou a analisar artistas e suas obras à luz da teoria da psicanálise, fazendo uma análise profunda das manifestações inconscientes através da leitura dessas obras artísticas. Por sua vez, Jung (1985) enuncia que os conteúdos da obra de arte revelam as características do indivíduo que realiza a obra, afirmando que “o processo criativo consiste numa ativação inconsciente do arquétipo e numa elaboração e formalização na obra acabada” (p. 71). Os símbolos, os arquétipos e os conteúdos inconscientes, que se manifestam via expressão artística, contribuem para o autoconhecimento.

No Brasil, a psiquiatra Nise da Silveira foi pioneira ao inserir no hospital psiquiátrico um setor de terapia ocupacional, que mais tarde deu origem ao museu das imagens do inconsciente. Ela encontrou sustentação teórica em Jung e tornou-se referência no assunto, afirmando que “toda imagem arquetípica não é um símbolo por si só. Em todo símbolo está presente a imagem arquetípica como fator essencial […]. O símbolo é uma forma extremamente complexa” (SILVEIRA, 1981 p. 80), que está a serviço de expressar algo que as palavras não puderam trazer à tona. A partir disso, podemos refletir sobre a violência, a barbárie, os abusos sociais, familiares, e tudo o que está a adoecer as pessoas.

De acordo com Bacelar (1999), apenas quando o indivíduo parte em direção de si mesmo, sem medo de encontrar a dor, é que ele descobre diversos caminhos através dos quais encontra qualidade de vida. Sendo assim, a aplicabilidade da Arteterapia no ambiente escolar e social pode favorecer o autoconhecimento, a conscientização e até mesmo a cura.

Com arte e terapia na arteterapia é possível encontrar respostas para demandas inconscientes e conscientes do ser humano, que se beneficia nessa abordagem arteterapêutica para a vida e entendimento de si, bem como para obter maior autoconhecimento.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Liomar Quinto de. Terapias Expressivas. São Paulo: Vector, 2000.

BACELAR, Washington. O autoconhecimento e a qualidade de vida. Overmundo, 1999. Disponível em: <http://www.overmundo.com.br/overblog/autoconhecimento-e-qualidade-devida> Acesso em: 15 jun. 2018.

CARVALHO, Maria Margarida de (Coord.). A Arte Cura? Recursos Artísticos em Psicoterapia. Campinas: Editorial Psy II, 1995.

CHRISTO, Edna Chagas; SILVA, Graça Maria Dias da. Criatividade em Arteterapia: pintando & desenhando, recortando, colando & dobrando. 2. ed. Rio de Janeiro: Wak, 2005.

GUIMARÃES, Gislaine Nunes. A criatividade do desenvolvimento do potencial humano. Arteterapia em Revista, Porto Alegre. v.1 n.1, p. 43, maio 2005.

JUNG, Carl Gustav. O Espírito na Arte e na Ciência. Obras Completas de C. G. Jung, Volume XV. Petrópolis: Editora Vozes, 1985.

LIEBMANN, Marian. Exercícios de arte para grupos: um manual de temas, jogos e exercícios. São Paulo: Summus, 2000.

PHILIPPINI, Angela. Cartografias da coragem: para entender arteterapia. Rio de Janeiro: Wak, 2004

SANTANA, Josiane Isabel Stroka. O uso das artes na psicoterapia arteterapia.  Revista de Psicologia. ATLASPSICO nº 03, p. 6-15, set 2007.

SILVEIRA, Nise da. Jung: vida e obra. 7. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981. 

URRUTIGARAY, Maria Cristina. Arteterapia: a transformação pessoal pelas imagens. 3. ed. Rio de Janeiro: Wak, 2006.

Com Base em: SOAVE, Cláudia; SALATINO, Vialana Ester. ARTETERAPIA EM PROCESSOS EDUCATIVOS: POSSIBILIDADES DE RESISTÊNCIA E ESCAPE À BARBÁRIE. In: REAL, Daniela Corte; PEDRO, Joanne Cristina; SILVA, Patrícia Modesto da (org.). E-book do I SIBFORP & II JIPPGE – BR/A: i seminário internacional de educação, biopolítica e formação de professores & ii jornada interuniversitária de pósgraduação em educação bra. Caxias do Sul: Even3 Publicações, 2019. Cap. 4. p. 211-215. Disponível em: file:///C:/Users/viala/OneDrive/Desktop/Eventos/SIBIFORP/submiss%C3%A3o%20SIBFORP/ebook-i-sibforp.pdf. Acesso em: 18 set. 2021.

Como citar esse texto?

SALATINO, Vialana Ester. O que é arteterapia? 2021. Blog do site de Psicologia. Disponível em: http://vialana.com.br/site/. Acesso em: 30 set. 2021.

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