Cuidar de si é quase sempre a última coisa que costumamos lembrar de fazer, e mesmo quando aprendemos a nos priorizar, por vezes, costumamos ser flexíveis e trocar esses momentos de auto cuidar-se por responsabilidades e trabalho.
Normalmente esta troca, barganha e negociação consigo mesmo, ocorre de forma tranquila e quase automática, afinal, filhos, família e trabalho, costumam ser mais importantes para nós que nós mesmos. Será que isso é o ideal a ser adotado por nós?
Claro que não, a pessoa mais importante da nossa vida somos nós mesmos, afinal se pergunte se você adoecer, estiver infeliz, ou não estiver bem consigo mesmo, seus filhos, ou amores ficam felizes, vendo ou percebendo você assim? Se pergunte? Pense alguns minutos sobre isso?
A resposta é não, um enorme não. Precisamos estar inteiros e saudáveis, para sermos felizes e para contribuirmos com a felicidade de todos que amamos. Por isso, muitas vezes coisas pequenas, são essenciais para a vida, um tempo de qualidade com seus familiares e amigos, uma comida feita em casa com carinho e com a ajuda de todos, pode ser mais deliciosa que aquela de um restaurante caro.
Uma troca de carinho, tempo para ouvir e falar de sentimentos e de pensamentos ou de projetos. Um bom filme com pipoca e de pijama, com direito a afeto de quem amamos não tem preço. Uma flor colhida na rua com sinceridade por um filho(a) ou amor, brincar com um animalzinho de estimação, ter tempo para o mais completo nada. Um café da manhã na cama ou um jantar à luz de velas são delícias merecidas. Ouvir música, dançar, cantar no chuveiro, conversar com amigos, cozinhar vagarosamente uma receita nova, nos energizam, renovam. Fazer coisas que gostamos de fazer, podem se tornar combustíveis potentes em vidas estressantes com responsabilidades constantes e pouco tempo.
E ainda precisamos lembrar que o consumismo extremo, faz com que paguemos nossas contas com a própria vida, não tendo tempo para viver, e nem cabeça para perceber isso. Como sempre digo, a vida não é só trabalho e pagar boletos. É preciso cuidar de si, se pagar, ter tempo para si. Viver o que é bom de se viver, sorrir, rir; chorar de emoção, sentir, sonhar, pensar; refletir sobre a vida; se exercitar, se alimentar de forma saudável e por vezes comer todas as “porcarias” de que se gosta; estar bem na companhia de pessoas ou de si mesmo(a), mas estar bem com isso. Perceber que você respira, que seu coração bate, que você gosta de algumas pequenas coisas, faz bem e, praticar o que te faz bem, faz ser feliz e é cuidar de si.
É tão certo que “o homem esquece, ou deixa em segundo plano, de ser e de conviver (o viver com) na busca incessante do ter. (AMORIM, 2013, p. 437). Dessa forma o tempo vai passando, e a vida também. O ter se torna maior que o ser e até traz alegrias, realização e sensação de sucesso. Mas logo o vazio no ser, ou o estresse excessivo batem na porta, para também cobrar sua cota, pedir atenção e exigir um lugar ao sol.
Contudo o ser negligenciado cobra seu espaço, pois é sentido como um “buraco na alma”, e ele incomoda, dói, causa ansiedade, angústia, desesperança, depressão, transtornos psiquiátricos e adoecimento psíquico, com isso o ser olha para si e percebe que precisa de cuidado de si.
Na clínica de psicologia, percebemos que “há uma necessidade urgente de uma educação para o cuidado, em todos os níveis, áreas e disciplinas, que oriente o homem a se voltar para o seu interior e promover a difícil, porém, possível tarefa de se enxergar e buscar melhorar-se intimamente […]” (AMORIM, 2013, p. 440). Isso pode com o tempo mudar a cultura do não olhar que existe sobre si em uma sociedade que valoriza o ter como sucesso absoluto e que começa também a valorizar o corpo perfeito como complemento, mas e o emocional, até quando podemos sufocar em nós? Ele com certeza grita por socorro!
Na concepção foucaltiana o cuidado de si é amplo, vai além, ninguém fica bem se seu entorno também não está bem, como podemos estar bem se os outros não estão? Mas também os outros não ficam bem se nós não estamos bem!!!
Apenas aconselho que nos percebamos, que possamos olhar para dentro de nós mesmos, e nos amarmos, cuidando de si, para depois cuidar do outro. Sendo feliz e saudáveis tudo tende a ficar bem. Por vezes, nesta busca necessitamos de ajuda psicológica, psiquiátrica, médica e de outras ajudas, e nada há de errado ou feio em buscar esses auxílios, essas orientações profissionais tão qualificadas, para nos colocar no caminho mais acertado para nós, cada um do seu jeito, nas suas especificidades e com suas possibilidades. Então vamos valorizar o “Cuidar de Si” em nossas valiosas vidas humanas, pois também somos findáveis, não é mesmo?
REFERÊNCIAS
AMORIM, Karla Patrícia Cardoso. O cuidado de si para o cuidado do outro. Bioethika, São Paulo, p. 437-441, 2013. Disponível em: http://www.saocamilo-sp.br/pdf/bioethikos/155557/a09.pdf. Acesso em: 7 set. 2021.
FOUCAULT, M. História da Sexualidade: o cuidado de si. Rio de Janeiro: Graal , 2009c. v. 3.
Como citar esse texto?
SALATINO, Vialana Ester. O cuidado de si que a felicidade comtempla. 2021. Blog do site de Psicologia. Disponível em: http://vialana.com.br/site/. Acesso em: 30 set. 2021.
