Em 2019 assistimos ao filme “Joker” ou mais um enredo sobre o Coringa vilão conhecido pelos embates com o Batman, mas nessa versão mais psicológica, se percebe como o adoecimento mental constitui um vilão. E quem é o vilão afinal?
Aquele que enfrenta uma vida de miséria, cresce sem conhecer o pai, sofre violência doméstica e que passa por bullying na escola, assédio moral no contexto do trabalho, violência por ser frágil, por ser o palhaço, no caso do Coringa aqui mencionado, quem gostaria de viver a vida do vilão exposta no filme Joker 2019, que explicita um vilão ou seria uma vítima?
Vítima por crescer com a mãe, uma empregada doméstica, destinada ao envelhecimento na pobreza e segregada a sua casa por um quadro de doença mental que faz dela incapaz de buscar o capital, ao qual necessita para a sobrevivência dela e do filho, que passa por violências e abusos desde sua infância e que ironicamente é chamado pela mesma, não pelo nome Arthur, mas de Feliz que mais tarde é visto como um grande vilão.
De profissão um palhaço, com todas as conotações que a palavra carrega em si. Um triste palhaço, que precisa sair para o trabalho diário demonstrando estar feliz, assim como cada um de nós, caso contrário não serve aos empregadores, que talvez com os salários atuais praticados, paguem também a felicidade estampada na cara de cada palhaço que vai ao palco da vida. Há também como no filme palhaços que pintam seu rosto com negras lágrimas que não se contém e que riem risos nervosos, repletos de significados emocionais, neurológicos, psiquiátricos e expressam o que não sentem e o que sentem não podem expressar.
Nem mesmo em espaços de escuta, são ouvidos, ou acolhidos, ou neles se encontra ajuda, pois falta empatia e os serviços gratuitos são extintos ou inexistentes e poucos são os que de fato se importam. Destacando a frase do diário de Arthur (nome do palhaço no filme), “a pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse” (JOKER, 2019). Tudo isso em busca de uma falsa normalidade, já bem precária em nossos tempos. Uma realidade onde tomar sete medicamentos psiquiátricos e reclamar que ainda assim não está bem, representa uma indiferença e ainda podendo ficar sem atendimento médico, psiquiátrico, psicológico, e de um momento para o outro também sem medicamentos é absurdo aceitável por uma sociedade, que automaticamente aceita e cobre os olhos com um véu que tudo nega, que não sabe como e nem onde buscar seus direitos e assim adoece e vira lixo com total naturalidade.
E apesar de todos os sintomas, a risada, os tiques, o zumbido no ouvido, as fantasias e alucinações, sintomas que mesmo leigos, percebem, tudo é palhaçada, ninguém socorre, como se isso não fosse tão grave, quanto ver sintomas de um infarto ou de um acidente vascular cerebral. Logo seres humanos estamos à mercê da sorte e dessas políticas em ruína que no filme tão bem são representadas pelo caos, das epidemias, e pragas de ratos e outras, onde o mais insuportável nisso tudo, outro sintoma social, é a violência e que em Joker 2019 é tão bem representada pela total impunidade, falta de socorro e segurança e ainda por uma total crise de empatia, estampada pela mídia que narra a história com suas escolhidas verdades.
No personagem, mas também na realidade, seria cômica se não fosse trágica a frase: “Só espero que minha morte faça mais centavos que minha vida!” (JOKER, 2019), outra frase de um diário que é também um caderno de piadas e uma evidência da psicopatia do palhaço, uma forte evidência da miséria capital e humana em que a maioria de nós sobrevive e com isso ainda existem sorrisos e luta. Pois não existe preocupação com alimentação, até porque essa não pode ser uma prioridade, se também é necessário cuidar de alguém doente ou idoso, ou os dois, então os enfrentamentos são ainda mais pesados, porque você ou o palhaço, faz isso completamente sozinho. E mesmo que você seja constantemente agredido lá fora, e humilhado constantemente pela falta de estrutura em casa, pelas necessidades negadas a cada dia de luta, pelos sonhos que só encontram saída na fantasia, na alucinação e por fim no delírio psicotizante. Nessa dimensão das vidas desumanas não existe espaço para o cuidar de si.
Outro drama humano tão bem representado no filme se dá pelo contexto familiar em um núcleo onde o filho não conhece o pai e a mãe surta pela falta de amor e abuso por parte de um homem que a sucumbe a não existência, pois é poderoso e este dinheiro compra tudo, ou se não compra transforma em quase nada. E na tão comum busca por ter um pai, um pertencimento, afeto e ser um filho, a rejeição pesada que fragmenta a psiquê já tão trincada, faz surtar, mas ainda assim ninguém se importa.
Crescer numa família assim deixa marcas, gera transtornos mentais e consequentemente leva mais cedo ou mais tarde a conhecida loucura, na qual você vira piada, comédia ou então ainda mais o homem invisível, afinal, tudo o que o dito vilão suportou até enlouquecer, não foi pouco, não é mesmo? Muitas pessoas suportam até mais, mas esse foi o limite para o Coringa. Sendo que na vida real, na triste realidade, dói mesmo, fere, faz o coração sangrar, gera sofrimento que é de verdade e que a maioria das pessoas enfrenta dia após dia, em talvez contextos diferentes, com nuances próprias, mas suportam uma vida desumana, com inúmeras privações, fome, abusos, doenças, uma total deficiência social, cultural, educacional e nenhum super-herói vem salvar esses palhaços da dura realidade desumana.
Há também o contexto do trabalho, representado por empregadores que não dão a mínima para os trabalhadores, apenas administram recursos, alocam pessoas, contratam, demitem e ainda ferem quando as coisas dão errado, nem mesmo oferecem uma cadeira ou um copo d’água quando mais precisa, antes de humilhar e aniquilar com o palhaço que para eles trabalha. A vida pessoal não importa ao palco do trabalho, como se existisse uma vida profissional, sem existir a pessoa, o ser, o humano, tão desumanizado nessa peça que é a vida. Sendo as organizações com esse perfil ruinas humanas que levam ao adoecimento e a loucura no trabalho.
A rejeição do ser vilão ou vítima, está em diversas dimensões de sua vida, sendo sempre um sofrimento forte ou uma forte negação daquilo que passa, mas o palhaço sente no fundo do inconsciente tudo o que vive, e ao surtar ele não sente mais dor, pena, não sente mais nada e isso é libertador, então faz o que quiser, pois sente que pode tudo e dane-se os outros, pois ninguém olhou para ele antes. Se eu não tenho o olhar do outro, então o outro não existe, nem como reflexo de um espelho que se quebrou. E aos poucos a sociedade como em uma normose – comportamento psicótico aceito como normal – se identifica e se espelha no herói vilão, pois seus sentimentos de injustiça, raiva, tristeza, submissão, escravidão são identificados no palhaço como em um espelho.
Se o palhaço ou você hoje sofre mais do que ontem, ninguém se importa, a empatia não está presente, pois todos tendem a olhar somente para si próprios. Imersos em falta de sensibilidade e enfrentamento a sociedade em geral sucumbe, existe sucateamento e disparidade de classes, e a maioria não vê seu poder, pois foi cegada pela minoria que se mostra de cima para baixo, você engole essas mentiras goela abaixo. E se você não tem ar-condicionado em casa, no calor, pode entrar na geladeira, se precisar de atendimento psiquiátrico poderá mofar em manicômios desumanos e tão coerentes com o sistema. Que mais ainda contribuem para a insanidade do que o contrário.
Ninguém percebe a dor e a tristeza do palhaço, dessa pessoa que surta, pois é mais fácil negar, não ver e não agir, pois isso seria mais peso ainda, para carregar, e já não conseguimos com os nossos pesos em uma vida de cara feliz de palhaço que consome nossas energias para o ser. Então a doença mental nos alcança, ou melhor só acontece com o outro, com aquele palhaço, coitado, no entanto, assim como hoje foi ele, amanhã serei eu ou você? Mesmo que tal palhaço afirme em rede nacional: “eu nunca fui feliz nem um minuto da porra da minha vida” (JOKER, 2019, 1:20:57) quem irá lhe ouvir? Ou se importar? Nem a mãe, pois ela já não existe e mesmo nunca conseguiu ser.
No surto emoções não existem, mas existe uma lógica no pensamento psicótico que tudo pode, o próprio Coringa questiona: “o que você consegue quando cruza solitário um doente mental com uma sociedade que o abandona e o trata que nem lixo?” (JOKER, 2019, 1:44:53) Claramente sentimentos mortos em alguém que não tem nada a perder em uma sociedade que não vê: “eu não tenho mais nada a perder, nada mais me machuca, minha vida não passa de uma comédia” (JOKER, 2019, 1:42:01) que infelizmente nada tem de engraçada. Bem como o palhaço que nada tem de palhaço, mas que carrega a obrigação diária de sorrir e de fazer rir, mesmo que já não o consiga, afirma já exaurido pelo sistema: “o sistema que sabe tudo, vocês decidem o que é certo e o que é errado. Todo mundo é péssimo hoje em dia e é o que basta pra gente enlouquecer” (JOKER, 2019, 1:42:24).
O Coringa ou o vilão, ou o culpado surge no exato instante em que fere a aparência civilizada de uma sociedade pseudoequilibrada, mas que está por explodir a qualquer oportunidade. Claro que é mais fácil culparmos alguém que não possa ser responsabilizado por seus atos, mesmo que ele não seja o real vilão. Com isso tudo se cala, com o sacrifício de uma ou mais vidas, mas não sendo a minha eu não me preocupo tanto assim, deixo que o outro, o palhaço, pague o pato, afinal: “Ninguém nunca é civilizado. Ninguém pensa como é estar no lugar da outra pessoa” (JOKER, 2019, 1:43:41), logo esse outro não existe nem para mim, nem para você e também está a margem da sociedade civil tão desorganizada.
O vilão finge estar tudo bem quando suas lágrimas já secaram, uma vez que não existe mais sentimento nele, então no lugar de chorar ele ri, um riso seco e estridente que ninguém compreende a não ser o seu próprio eco vazio interno. Ele segue a lógica daquilo que é possível para ele, e pinta sua boca com o sangue da violência social, humana e desumana, e entende ainda em luta interna, psíquica, que assim supera o que seu novo funcionamento impõe, mas a cada nova ação, ele mais se equivoca e consequentemente mais será condenado, pelos civilizados do entorno. Em toda a sua trajetória nessa vida desumana quem não o rechaça é poupado, mesmo que ainda assim, não tendo conhecido a nenhum afeto na vida toda tão desumana e segue na loucura que a si foi imposta, de verdade ele apenas foi vítima desde o seu nascimento até então. E você o que é? Vítima ou será um Super Vilão no futuro? Quem sabe um Super Herói, que cria a Liga da Justiça e vem salvar a todos nessa Gotham City tão real? Até porque a vida imita a arte, não é mesmo? Ah! Um conselho é que escreva essa frase em um local ou quadro para se lembrar sempre antes de sair de casa: “Não se esqueça Sorria!” (JOKER, 2019)
REFERÊNCIAS
JOKER. Direção de Todd Phillips. Produção de Joint Effort Productions e Green Hat Films. Música: Hildur Guðnadóttir. Estados Unidos: Warner Bros, 2019. (122 min.), son., color. Legendado.
Como citar esse texto?
SALATINO, Vialana Ester. A doença mental e o Coringa no setembro amarelo! 2021. Blog do site de Psicologia. Disponível em: http://vialana.com.br/site/. Acesso em: 30 set. 2021.
